1 de dezembro de 2009

Abres

Aí você se abre ao conhecer alguém.

Abre a webcam
Abre a porta
Abre o sorriso
Abre os limites
Abre a carteira
Abre as pernas
Abre o coração

E abre os olhos.

E vê que a primeira e única coisa que deveria ter aberto eram mesmo os olhos.

8 de novembro de 2009

Da nobre arte de aproveitar o momento

O fim de semana já era uma crônica de morte anunciada há tempos. Morte, neste caso, de alegria. Disse ontem e repito: se eu morresse hoje morreria feliz. Por uma infinidade de motivos e acontecimentos que só ocorrem assim, cadenciados, quando Deus (ou o Universo, ou aquela "força superior", ou o que quiser chamar) mexe os pauzinhos dEle e parece que diz: "Vai lá, minha filha, você não merece mas Eu quero te dar esse presente".

Show do Bresser na sexta feira no Largo de Santa Cecília. Contratempos à parte (e não foram poucos), foi uma grande apresentação. Os meninos têm raça, e capacidade de fazer boa música mesmo em condições adversas. Sem amplificadores decentes, sem backing vocal, sem vergonha e sem medo, mostraram que conseguem agitar e conquistar o público com um repertório de 90% de músicas próprias. Como diz o Mariel, baterista, existe uma diferença enorme entre viver para a música e viver de música.

Sábado de sol, promessa de um festival "aos modos europeus" perto do Jockey Clube. Nem os atrasos, nem os desencontros, nem a péssima organização que antecipou todos os shows, nada disso estragou. Nem a chuva que chegou minutos antes que o Faith No More subisse ao palco atrapalhou. Pelo contrário, foi lindo ver Mike Patton fazendo sua entrada de guarda chuva e o já clássico terno vinho.

Gritei, pulei, me molhei, viajei. Perfeito.

Depois do show nada melhor do que matar a fome numa das únicas lanchonetes 24h do Centro: Estadão. Histórias, mais cerveja (Cerpa, cerveja de responsa) e o tradicional sanduíche de pernil (gigante) que faz a casa ser tão famosa mesmo sem investir um centavo em propaganda.

Fechar um bar no Largo do Arouche nunca foi algo que passasse com facilidade na minha cabeça. Fechar DOIS bares na mesma noite, então? Impossível. (Destaque pra quantidade absurda de casais gays. Me senti quase deslocada sendo hetero e "invadindo" o espaço deles.)

Amanhecer na estação da Luz e conhecer o mano Anderson foi a cereja que faltava em cima do bolo. Fotos? Quase nenhuma. Mas a memória sabe bem o que guardar.

25 de outubro de 2009

Meio século


Fui ontem à festa de bodas de ouro do irmão do meu avô. Chorei litros, revi alguns primos e tive lembranças de pessoas com as quais não convivi, mas que fazem parte da grande (em vários sentidos) família Piasentin.

Meu avô morreu há 24 anos, menos de uma semana depois do casamento do meu pai. O irmão dele é muito parecido com ele, e está com setenta e alguns anos, lúcido porém com alguns movimentos comprometidos. A saúde uma hora pede as contas, certo?

Cumprimentei velhos, não tão velhos e novos primos de segundo, terceiro e quarto grau. Meu pai e meus tios a cada 2 minutos diziam: "Vem conhecer o tio". Pra eles a festa foi bem mais interessante do que pra mim, já que cada par de olhos que me olhavam acompanhava um sorriso sem graça e sempre a mesma pergunta: "Você é filha de quem?". Pra eles foi uma forma de relembrar os domingos da infância passados na casa da nona, regados a Crustolle e vinho para os mais velhos.

Não sei se por muito amor ou por muita teimosia (ou por uma incrível mistura dos dois) os pais da minha mãe estão juntos há 55 anos. Nesta festa eu mais do que assistir ajudei também a preparar homenagens, fazer convites, decorar igreja. Já presenciei algumas bodas de ouro nestes 22 anos. Dos irmãos dos meus avós, dos meus próprios avós, de amigos do meu avô que ele considera irmãos. Nenhuma é igual à outra, mas todas são igualmente emocionantes.

Todos eles superaram dificuldades, crises e diferenças para estar juntos. Deixaram muita coisa de lado pra passar o resto da vida com as pessoas que amavam. Andava eu meio cética a respeito de vida a dois, mas ontem me lembrei que tenho na minha vida exemplos de sobra que me fazem ter certeza que se for a pessoa certa valerá muito a pena.

23 de outubro de 2009

Mais uma noite

Escrito na madrugada de ontem.

(00h08) Passei meia hora me olhando no espelho. Comecei como quem não tem mais nada útil pra fazer, cuidando das espinhas e arrumando a sobrancelha; mas depois comecei a reparar em mim mesma. Olhei de lado, olhei de cima, olhei de baixo. E não vi mais nada.

Não vi mais aquela criança que adorava assistir desenho na TV e andar de patins, mesmo que isso a deixasse com enormes bolhas nos pés chatos. Não vi mais aquela adolescente mimada, que gostava de espiar de longe os meninos da escola dela quando jogavam futebol e ficavam se exibindo pras menininhas. Não vi mais aquela mulher que ainda não está pronta, que mal sabe das coisas do mundo mas insiste em fingir saber, só pra que não a façam de tonta.

Não vi mais do que uma adolescente ainda criança, assustada com a possibilidade de ter que virar mulher antes do planejado. Não vi mais do que uma moça desiludida da vida, lutando pra que ela ainda tenha alguma cor, algum sentido, algum fim. Não vi mais do que olhos castanhos (como os de toda a gente) deixando escorrer uma lágrima que não deveria estar ali. Não vi mais do que cabelos vermelhos molhados, que ao secar fazem caracóis bonitos mas quanto mais ela se esforça por cuidar mais lisos e disformes eles ficam.

Não vi dentro dos olhos dela nenhuma luz que pudesse sair. Havia uma lanterninha fraca, quase sem pilha, acesa lá no fundo. E um coração apertado, quase escondido, meio caído, meio dormindo. Foi isso o que eu vi, e me assustei, e chorei, e saí correndo da frente do espelho, por não querer ver mais nada. (00h38)