Tudo começou como um capricho. Dormia com dois travesseiros; coluna torta, cabeça pesada. Mesmo no verão não se privava do lençol e uma colcha. Rinite. Mesmo que dormisse como uma pedra os sonhos a levavam alto, tão alto que o vento que tomava no rosto sempre a fazia acordar com a garganta doendo. Pequenas frescuras.
Havia dias em que inventava de dormir com os pés na cabeceira da cama. "Durmo sozinha, ninguém pode me julgar", justificava-se. Levava para baixo das cobertas sempre um companheiro diferente nas madrugadas em que o sono demorava a chegar. Cony, Dostoiévski, Bukowski, Mark Knopfler e seus solos transcendentais. Passou anos desta maneira.
Em uma noite quente de Natal em que era impossível fechar a janela, decidiu usar um dos travesseiros como barricada para a brisa que invadia seu quarto. Deu tão certo que o hábito se transformou em necessidade. "E quando você se casar e tiver que dividir a cama com alguém? Como vai ser?", reclamava a mãe. "Bah!, depois penso nisso", retrucava.
Dito e feito: seu marido tinha que aguentar aquele travesseiro entre eles. Ela tentou, em vão, substituir a peça de espuma pelo lençol, mas nada a dava tranquilidade suficiente para fechar os olhos. O cônjuge sentia-se desprezado, apesar de todo o carinho que recebia nas 16 horas restantes do dia.
Não entendia seus motivos, então desenvolveu uma obsessão por aquela parede fofa. Chegou a extremos infantis, como esconder o travesseiro sobressalente ou mesmo arrancá-lo de cima do rosto de sua amada durante a noite. Nada adiantava. A falta da peça fazia com que ela acordasse imediatamente e iniciasse a mesma discussão de sempre:
"Me deixa!"
"Mas eu quero te fazer um cafuné!"
ou
"É perigoso! E se você ficar sufocada?"
"Isso nunca vai acontecer!"
O marido, resignado, ia dormir sempre antes dela. Cada um em um canto da cama king-size com colchão de quinhentas molas. Desenvolveu distúrbios de sono, roncava, mexia-se demasiadamente, falava durante a noite inteira. O travesseiro a impedia de ouvir a sinfonia da separação.
Certa vez ele levantou-se e foi espalhando todos os cobertores pela casa. Ela acordou com frio, percebeu que o esposo não estava ao seu lado, pegou um edredon no armário e voltou para a cama. "Sonambulismo, era só o que faltava!", pensou, antes de meter a cabeça embaixo do travesseiro de novo. Pela última vez.
Sarah Kelly escreve neste blogue quando lhe é permitido. Ela quer que as pessoas ouçam o que ela tem a dizer, mesmo que muitas vezes tudo só faça sentido para ela mesma.
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26 de dezembro de 2011
26 de setembro de 2010
Fairy tale
Já disse mais de uma vez que odeio contos de fadas. Minha filha (se um dia eu tiver uma menina) não vai ler contos de fadas. Ela não vai crescer esperando príncipes encantados montados em cavalos brancos (ou em motocicletas pretas, que seja). Talvez isso a poupe da inocência exagerada que por vezes estraga certas relações. (Ou não. Veremos.)
Quando eu era pequena assistia a muitos programas infantis, a maioria deles na TV Cultura. Havia um que se chamava "Contos de fadas", produção muito feliz da americana Shelley Duvall, que trazia convidados ilustres como Anjelica Huston, Robin Williams e outros. Naquela época eu nem sabia quem eram tais figuras, mas hoje foi exatamente um desses artistas que me fez assistir pela milésima vez à história da Bela Adormecida. Christopher Reeve, o eterno SuperMan (em todos os sentidos possíveis) lá estava, vestido de príncipe encantado e empunhando um machado. Tem coisa mais divertida do que descobrir que uma das suas referências nerds mais antigas vem das histórias da infância?
Convido-vos a apreciar a história. Todos os vídeos somam quase uma hora, então sugiro um pote de pipocas e uma cadeira confortável. =)
1:
"Viemos de uma terra muito distante"
"Ah, de fato temos muitos viajantes de lá"
2:
"Todos esses dons, para que servem? Crescer, apaixonar-se, viver feliz para sempre, certo? Ótimo. Besteira! Inútil! Homens, yargh! Amor, ugh! Vocês estão falando de sofrimento, dor no coração, problemas, estão me ouvindo?"
3:
"Príncipe, onde está o seu senso de humor?"
"Francamente, madame, é o seu senso de decência que me interessa."
(...)
"Fique longe das princesas. Elas sempre vão te considerar um tolo."
4:
"Não aperfeiçoe o que já é perfeito."
5:
"Cá entre nós, vamos esperar que haja um príncipe por aí com mais coragem do que juízo."
6:
"Você é meu sonho tornando-se real, ou estarei sonhando agora?"
Depois de tudo isso sobram ainda poucas palavras. Eu devia ter prestado mais atenção na Shelley Duvall do que na Disney. E estou ficando cada vez mais parecida com a fada má do segundo vídeo. E tenho medo disso.
Quando eu era pequena assistia a muitos programas infantis, a maioria deles na TV Cultura. Havia um que se chamava "Contos de fadas", produção muito feliz da americana Shelley Duvall, que trazia convidados ilustres como Anjelica Huston, Robin Williams e outros. Naquela época eu nem sabia quem eram tais figuras, mas hoje foi exatamente um desses artistas que me fez assistir pela milésima vez à história da Bela Adormecida. Christopher Reeve, o eterno SuperMan (em todos os sentidos possíveis) lá estava, vestido de príncipe encantado e empunhando um machado. Tem coisa mais divertida do que descobrir que uma das suas referências nerds mais antigas vem das histórias da infância?
Convido-vos a apreciar a história. Todos os vídeos somam quase uma hora, então sugiro um pote de pipocas e uma cadeira confortável. =)
1:
"Viemos de uma terra muito distante"
"Ah, de fato temos muitos viajantes de lá"
2:
"Todos esses dons, para que servem? Crescer, apaixonar-se, viver feliz para sempre, certo? Ótimo. Besteira! Inútil! Homens, yargh! Amor, ugh! Vocês estão falando de sofrimento, dor no coração, problemas, estão me ouvindo?"
3:
"Príncipe, onde está o seu senso de humor?"
"Francamente, madame, é o seu senso de decência que me interessa."
(...)
"Fique longe das princesas. Elas sempre vão te considerar um tolo."
4:
"Não aperfeiçoe o que já é perfeito."
5:
"Cá entre nós, vamos esperar que haja um príncipe por aí com mais coragem do que juízo."
6:
"Você é meu sonho tornando-se real, ou estarei sonhando agora?"
Depois de tudo isso sobram ainda poucas palavras. Eu devia ter prestado mais atenção na Shelley Duvall do que na Disney. E estou ficando cada vez mais parecida com a fada má do segundo vídeo. E tenho medo disso.
4 de setembro de 2009
Cena
Uma ruiva no ônibus, de pé na sanfona com um livro nas mãos. O calor é insuportável e a cabeça dói, então ela decide fechar o livro e ouvir um pouco de música. Lá pelas tantas o ônibus dá um solavanco, ela levanta os olhos pra janela mais próxima e vê entre dois vidros embaçados e molhados a bandeira do Brasil, encharcada e iluminada por três holofotes. Na outra fresta da outra janela, a Prefeitura e o viaduto do Chá. Uma guitarra chora alguns acordes em seus ouvidos, e ela pensa por um momento nos acontecimentos de meia semana. E pensa que apesar do calor e da fome e do cansaço e da dor e da solidão e da carência ela precisa guardar o nome daquela música, pra mostrar pra um certo alguém...
16 de agosto de 2009
Esteve parada ali por uns três ou quatro minutos, esperando não sabia exatamente o quê. A água barrenta do Mondego corria silenciosamente em direção à foz, alguns carros vez ou outra passavam na rua, deixando um rastro de luzes e barulho. E ela continuava ali, parada, como se algo houvesse levado embora sua capacidade de se mover.
A parede de vidro que a separava do rio era espessa... Quebrá-la não parecia tão simples. E também não era necessário, quando se podia somente andar até o final do píer, e ver a proteção transparente se transformar em pedras acinzentadas, à altura do chão.
Na outra margem havia um grande festival. Àquela hora The Cynicals agitavam uma dúzia de estudantes bêbados no palco principal, enquanto os DJs das tendas faziam valer a pena os oito euros cobrados à entrada. Ela estava pra fora, preocupada com o que pudesse estar acontecendo lá dentro. Havia voltado pra casa pra pegar algum dinheiro e chamar um ombro amigo. Nunca nos últimos 6 meses havia sentido tanta falta de um telemóvel.
"Tásse em casa?"
"Tou saindo pro festival"
"Ótimo, me espera aí, preciso falar contigo"
Antes de sair, mais uma chamada:
"Ele tá aí?"
"Está sim, queres falar com ele?"
"Não, só me diz se ele tá bravo"
"Não me parece. Aconteceu alguma coisa?"
"Sim. Desculpa te incomodar com isso"
"Não tens que pedir desculpas"
"Tou indo praí em meia hora, cuida dele pra mim?"
"Claro"
Saiu de novo, batendo a porta e vestindo um casaco. Não estava calor, mas uma gota de suor escorria de sua testa. Andava rápido o suficiente pra fugir de qualquer perigo nocturno, mas não conseguia fugir de si mesma. Num pequeno ataque paranoide mudou de calçada várias vezes, enquanto se esforçava pra andar mais rápido do que suas curtas pernas conseguiam. Subiu as escadas de dois em dois degraus, o fraco coração dava sinais de que aquele seria seu último esforço.
Normalmente levava dez minutos e meio. Chegou em quatro. Bateu à porta tantas vezes quanto conseguiu, gritou até a voz falhar, mas ela não respondeu. Chamou mentalmente, quis ser telepata, sociopata, suicida. Quis voltar pra casa. Não a casa quase à beira do rio que alugara por alguns meses. Quis voltar pra sua casa de verdade. O seu país, com toda a poluição, o trânsito e a agitação da grande cidade que tanto amava.
Encontrou a amiga pela rua e seguiram para o festival. Pelo caminho algumas lágrimas e um abraço. Estava mais calma. Atravessaram o rio pela ponte multicoloridamente iluminada e ela tentou deixar na outra margem toda a preocupação. Asher Lane estava subindo no palco. Era dia de festa.
16 de novembro de 2008
Quem sabe um dia
As duas conversavam no ponto de ônibus. Mais um dia estressante de trabalho acabara de chegar ao fim. A pauta: os homens – esses seres tão terríveis, mal-educados, insensíveis; mas tão capazes de resolver todos os problemas do mundo quando estão por perto.
Já fazia um tempo que ela precisava arrumar um desses seres complicados para chamar de “seu”. A amiga – sempre preocupada, como toda boa amiga deve ser – elencava possíveis pretendentes, todos rejeitados por ela: “Esse só vai querer uma noite. Aquele é enrolado demais, vai me dar muita dor de cabeça”. E assim prosseguia a conversa, quando de repente o celular tocou.
- É ele (previu a amiga, coberta de certeza)
- Como você sabe? (Devolveu ela, não percebendo a obviedade de tal situação)
Estranho seria se não fosse ele.
Ela parou por um momento. Não queria atender a ligação. Aquele nome registrado pelo identificador de chamadas causava nela um estranho sentimento. Não era amor, nem ódio, nem uma mistura dos dois. A sensação era de euforia, porém o coração não batia mais rápido e as mãos não suavam. Pelo contrário, tremiam. Se fôssemos classificá-lo, ele ocuparia toda a gama possível de sentimentos, passando entre os mais nobres e vis.
- Oi, fala (Já estava desanimada, sabia que alguma coisa havia acontecido, pra ele ligar àquela hora, sendo que estiveram lado a lado a tarde toda, e ele havia saído há meia hora, para encontrar a namorada)
- Onde você está? (‘Onde você está’ era sempre a primeira frase que ele dizia ao telefone. ‘Alô’, ‘Oi’ e ‘Como vai’ já haviam perdido o sentido)
- Esperando o ônibus com a amiga. Aconteceu alguma coisa?
- Não, acabei de chegar em casa, só queria saber de você.
- Queria saber de mim? Eu tou chateada com você.
- Por que? Que foi que eu fiz?
- Você me largou.
- Desculpa, não dava pra esperar.
- Eu sei, por isso estou chateada com você.
- Não posso fazer nada. (Silêncio) ...desculpa.
- Poder, você pode. Mas não hoje.
- (Silêncio)... Tá bom, desculpa, fico te devendo mais uma.
- Tenho que desligar agora.
A amiga ouviu tudo, e já estava cansada daquele diálogo. Sempre a mesma ladainha, ‘fico te devendo’, ‘desculpa’ era suficiente pra fazer ela ficar mais tranqüila. O problema é que só ela não via o que ele fazia com ela. Ou, se via, ignorava.
- Porque você está triste? (A amiga já sabia a resposta, mas ainda assim precisava perguntar. Era sua função de amiga fazer essa pergunta)
- Nada, não, só cansada, foi um dia cheio (Ela mentia descaradamente, certa de que surtiria efeito)
- Mentira. Agora me conta, por que você mente?
- Pra não te preocupar com os meus problemas.
- E por que eu não posso me preocupar com seus problemas, se você aparentemente não se preocupa?
- Por que eu não quero preocupar ninguém com eles.
- E quando você vai começar a se preocupar mais com você e parar de se preocupar com os outros?
Ela parou. Sabia que já havia passado da hora de se preocupar consigo. Sabia que não era fácil levar aquela vida, e muito menos fácil quando ela mesma não se permitia abertura para refletir a respeito de seus próprios problemas, mas... cadê coragem?
Já fazia um tempo que ela precisava arrumar um desses seres complicados para chamar de “seu”. A amiga – sempre preocupada, como toda boa amiga deve ser – elencava possíveis pretendentes, todos rejeitados por ela: “Esse só vai querer uma noite. Aquele é enrolado demais, vai me dar muita dor de cabeça”. E assim prosseguia a conversa, quando de repente o celular tocou.
- É ele (previu a amiga, coberta de certeza)
- Como você sabe? (Devolveu ela, não percebendo a obviedade de tal situação)
Estranho seria se não fosse ele.
Ela parou por um momento. Não queria atender a ligação. Aquele nome registrado pelo identificador de chamadas causava nela um estranho sentimento. Não era amor, nem ódio, nem uma mistura dos dois. A sensação era de euforia, porém o coração não batia mais rápido e as mãos não suavam. Pelo contrário, tremiam. Se fôssemos classificá-lo, ele ocuparia toda a gama possível de sentimentos, passando entre os mais nobres e vis.
- Oi, fala (Já estava desanimada, sabia que alguma coisa havia acontecido, pra ele ligar àquela hora, sendo que estiveram lado a lado a tarde toda, e ele havia saído há meia hora, para encontrar a namorada)
- Onde você está? (‘Onde você está’ era sempre a primeira frase que ele dizia ao telefone. ‘Alô’, ‘Oi’ e ‘Como vai’ já haviam perdido o sentido)
- Esperando o ônibus com a amiga. Aconteceu alguma coisa?
- Não, acabei de chegar em casa, só queria saber de você.
- Queria saber de mim? Eu tou chateada com você.
- Por que? Que foi que eu fiz?
- Você me largou.
- Desculpa, não dava pra esperar.
- Eu sei, por isso estou chateada com você.
- Não posso fazer nada. (Silêncio) ...desculpa.
- Poder, você pode. Mas não hoje.
- (Silêncio)... Tá bom, desculpa, fico te devendo mais uma.
- Tenho que desligar agora.
A amiga ouviu tudo, e já estava cansada daquele diálogo. Sempre a mesma ladainha, ‘fico te devendo’, ‘desculpa’ era suficiente pra fazer ela ficar mais tranqüila. O problema é que só ela não via o que ele fazia com ela. Ou, se via, ignorava.
- Porque você está triste? (A amiga já sabia a resposta, mas ainda assim precisava perguntar. Era sua função de amiga fazer essa pergunta)
- Nada, não, só cansada, foi um dia cheio (Ela mentia descaradamente, certa de que surtiria efeito)
- Mentira. Agora me conta, por que você mente?
- Pra não te preocupar com os meus problemas.
- E por que eu não posso me preocupar com seus problemas, se você aparentemente não se preocupa?
- Por que eu não quero preocupar ninguém com eles.
- E quando você vai começar a se preocupar mais com você e parar de se preocupar com os outros?
Ela parou. Sabia que já havia passado da hora de se preocupar consigo. Sabia que não era fácil levar aquela vida, e muito menos fácil quando ela mesma não se permitia abertura para refletir a respeito de seus próprios problemas, mas... cadê coragem?
27 de agosto de 2008
Conto de fadas moderno
Ela entrou no elevador e apertou o botão do térreo. Virou-se para trás, olhou o espelho e não se reconheceu. A primeira lágrima cortou o lado esquerdo de sua face. Até onde isso iria levá-la?
Ela estava sozinha agora.
“Prefiro morrer, a ter que te agüentar por mais um dia”, fora a frase que havia fechado a noite. O eco de cada palavra a fazia soluçar, mas ela ainda precisava passar pela portaria e enfrentar três ônibus até chegar em casa. Não podia se dar ao luxo de soluçar. Logo ela, que nunca gostou de chorar em público, estava do outro lado da cidade em prantos.
Passou apressada pela portaria, aproveitando a chegada de um entregador de pizza que segurou o portão para ela. Nem ao menos agradeceu, ou deu “boa noite” ao porteiro que, desde o momento em que ela havia chegado, sabia que as coisas não estavam bem. Ela não conseguia mais pensar em nada.
Eram quase dez da noite de uma sexta-feira que definitivamente não terminou bem. todos já haviam saído do trabalho, mas ela tinha que trabalhar mais, seus horários não eram normais como o de todos os outros; seu trabalho também não era normal. Para dizer a verdade, o que se pode chamar de "normal" é algo que ela nunca gostou, e uma palavra que ultimamente representa exatamente o antônimo do que se transformou sua vida.
Tirou o celular do bolso, à medida em que suas lágrimas ficavam mais grossas. Acendeu um cigarro e tentou caminhar mais depressa, para atravessar ainda com o farol vermelho, porém não conseguiu. Pensou por um momento inclusive em atravessar mesmo assim, e deixar que algum carro resolvesse de uma vez por todas os seus problemas, mas não foi o que ela fez. Parou junto a um poste, na calçada, e discou rapidamente a sequência de oito números que chamava quase que diariamente, para bons ou maus acontecimentos. Sete toques, e a mensagem gravada por uma locutora de aeroporto: "Sua mensagem está sendo encaminhada para a caixa de mensagens, e estará sujeita a cobrança após o sinal"... Pensou na amiga, e imaginou por que ela nunca atendia o celular. Ligou na casa mesmo, tentando controlar o choro caso algum dos familiares dela atendesse o telefone.
"Boa noite, desculpe incomodar a esta hora"... Ela vivia pedindo desculpas. Para seus pais, por ter momentos explosivos em casa; para seus amigos, por não saber controlar suas palavras duras; para seu chefe por atrasar o serviço. De tanto pedir desculpas, as palavras começaram a não mais fazer sentido para ela. Nem para ela, nem para os que as ouviam, pois já saíam de sua boca contaminadas pelo vazio intencional.
Conversou com a amiga por dezessete minutos e cinquenta e seis segundos. Foi o tempo de chorar, lamentar, perguntar por que e mesmo ver se a amiga sabia o que havia feito aquela boca dizer tais palavras para ela, minutos atrás: "Aquele avião deveria ter caído junto com você, assim eu não precisaria ter passado metade do desgosto que você me fez passar!" As palavras ainda ecoavam em seus ouvidos, enchendo os seus olhos de água e seu coração de rancor. Enchendo também a paciência da amiga, que pelo outro lado da ligação nada podia fazer, a não ser dar palavras de incentivo e de consolo, para que ela não tentasse nenhuma atitude desesperada ou impensada.
"Qualquer dia ele me mata", pensou, acariciando o peito. "Se não for fisicamente, me mata de tristeza", concluiu. Viu um ônibus vinho se aproximando do ponto e deu o sinal. Já haviam passado quatro que iam para o mesmo destino, mas ela não se sentia em condições de se mexer. Neste quinto resolveu fazer força, levantou o braço esquerdo e esperou que o grande coletivo encostasse perto da calçada.
"Bicho barulhento", pensou com ela, enquanto passava pela catraca e o motorista acelerava, rumo ao centro da cidade. Pensou ainda no outro ônibus que teria que tomar, e o tempo que levaria até chegar em sua casa. Seus olhos estavam fixos em lugar algum, ela sentou-se na primeira dupla de cadeiras que encontrou vazia, largando a pesada mochila no banco junto à janela e o próprio corpo na cadeira ao lado. O celular ainda nas mãos, discou para a operadora, certa de que seus créditos haviam chegado ao fim com a última ligação.
(Continua...)
Ela estava sozinha agora.
“Prefiro morrer, a ter que te agüentar por mais um dia”, fora a frase que havia fechado a noite. O eco de cada palavra a fazia soluçar, mas ela ainda precisava passar pela portaria e enfrentar três ônibus até chegar em casa. Não podia se dar ao luxo de soluçar. Logo ela, que nunca gostou de chorar em público, estava do outro lado da cidade em prantos.
Passou apressada pela portaria, aproveitando a chegada de um entregador de pizza que segurou o portão para ela. Nem ao menos agradeceu, ou deu “boa noite” ao porteiro que, desde o momento em que ela havia chegado, sabia que as coisas não estavam bem. Ela não conseguia mais pensar em nada.
Eram quase dez da noite de uma sexta-feira que definitivamente não terminou bem. todos já haviam saído do trabalho, mas ela tinha que trabalhar mais, seus horários não eram normais como o de todos os outros; seu trabalho também não era normal. Para dizer a verdade, o que se pode chamar de "normal" é algo que ela nunca gostou, e uma palavra que ultimamente representa exatamente o antônimo do que se transformou sua vida.
Tirou o celular do bolso, à medida em que suas lágrimas ficavam mais grossas. Acendeu um cigarro e tentou caminhar mais depressa, para atravessar ainda com o farol vermelho, porém não conseguiu. Pensou por um momento inclusive em atravessar mesmo assim, e deixar que algum carro resolvesse de uma vez por todas os seus problemas, mas não foi o que ela fez. Parou junto a um poste, na calçada, e discou rapidamente a sequência de oito números que chamava quase que diariamente, para bons ou maus acontecimentos. Sete toques, e a mensagem gravada por uma locutora de aeroporto: "Sua mensagem está sendo encaminhada para a caixa de mensagens, e estará sujeita a cobrança após o sinal"... Pensou na amiga, e imaginou por que ela nunca atendia o celular. Ligou na casa mesmo, tentando controlar o choro caso algum dos familiares dela atendesse o telefone.
"Boa noite, desculpe incomodar a esta hora"... Ela vivia pedindo desculpas. Para seus pais, por ter momentos explosivos em casa; para seus amigos, por não saber controlar suas palavras duras; para seu chefe por atrasar o serviço. De tanto pedir desculpas, as palavras começaram a não mais fazer sentido para ela. Nem para ela, nem para os que as ouviam, pois já saíam de sua boca contaminadas pelo vazio intencional.
Conversou com a amiga por dezessete minutos e cinquenta e seis segundos. Foi o tempo de chorar, lamentar, perguntar por que e mesmo ver se a amiga sabia o que havia feito aquela boca dizer tais palavras para ela, minutos atrás: "Aquele avião deveria ter caído junto com você, assim eu não precisaria ter passado metade do desgosto que você me fez passar!" As palavras ainda ecoavam em seus ouvidos, enchendo os seus olhos de água e seu coração de rancor. Enchendo também a paciência da amiga, que pelo outro lado da ligação nada podia fazer, a não ser dar palavras de incentivo e de consolo, para que ela não tentasse nenhuma atitude desesperada ou impensada.
"Qualquer dia ele me mata", pensou, acariciando o peito. "Se não for fisicamente, me mata de tristeza", concluiu. Viu um ônibus vinho se aproximando do ponto e deu o sinal. Já haviam passado quatro que iam para o mesmo destino, mas ela não se sentia em condições de se mexer. Neste quinto resolveu fazer força, levantou o braço esquerdo e esperou que o grande coletivo encostasse perto da calçada.
"Bicho barulhento", pensou com ela, enquanto passava pela catraca e o motorista acelerava, rumo ao centro da cidade. Pensou ainda no outro ônibus que teria que tomar, e o tempo que levaria até chegar em sua casa. Seus olhos estavam fixos em lugar algum, ela sentou-se na primeira dupla de cadeiras que encontrou vazia, largando a pesada mochila no banco junto à janela e o próprio corpo na cadeira ao lado. O celular ainda nas mãos, discou para a operadora, certa de que seus créditos haviam chegado ao fim com a última ligação.
(Continua...)
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