10 de setembro de 2009

Da semana que insiste em terminar

Semana atípica, de extrema felicidade e momentos únicos. Novos e velhos amigos, reencontros inesperados e uma alegria e saudade sem tamanho que invadiram minha alma. A lista de acontecimentos da semana:

- Dona Maria fez 80 anos no domingo. Festa em casa, família reunida, lágrimas e mais lágrimas. Tente fazer seu primo de 2 anos falar "Vovó, parabéns" para uma câmera, e você verá o que é dificuldade, hahah.

- Meus "sete de setembro" nunca significaram independência. Nunca vi uma fanfarra mas também nunca faltou uma festa ou viagem pra aproveitar o feriado. Felizmente o 07/09/09 foi maravilhoso, fantástico, perfeito, sensacional. Show da Bresser no Tatuapé, banda e fãs reunidos em volta de uma mesa, planos pro futuro e lembranças de um passado recente. (Chegar em casa à meia noite e bronca posterior são itens de série)

- Terça-feira com cara de segunda, semi-dilúvio em São Paulo, descobrir que faço parte de uma das famiglias mais lindas do mundo, a Brezzi. Sair 15 minutos mais cedo do serviço. Pegar zero trânsito na Marginal Tietê e na Dutra, e descobrir o que fazer pra que isso aconteça sempre: alagar a Anhanguera!

- Quarta dos colegas e da profissão... Na ex faculdade, encontro dois alunos do 3º ano que reconheceram minha voz, da época em que eu fazia um jornal acadêmico e ia de sala em sala distribuir pautas e recrutar repórteres. Fiquei feliz por ter realizado um grande sonho (por mais que hoje o pobre periódico esteja em coma eterno). Uma amiga - jornalista e agora designer - virou bixete de novo e passei por lá pra dar um "oi" e saber como estão as coisas. Além disso encontrei um outro amigo (jornalista quase formado) que dividiu comigo algumas horas de novidades e segredou planos para os próximos anos. Vida bandida e deliciosa.

- Quinta das loucuras musicais, de sair cantando alto Travis e U2, pela primeira vez sem me importar realmente com isso. Além de cantar e batucar no meio da rua, por que não quase dançar ao som de Gotan Project? Passeio rápido pela Paulista depois do expediente, em ótima companhia. Quinta da saudade e da esperança que o dia acabasse logo pra vir a sexta que coroa a semana perfeita.

- Sexta... Ah, ainda é um mistério, mas posso afirmar que à noite teremos "reunião de família" na Lapa, com pelo menos duas horas de boa música e quem sabe mais alguma surpresa.

Pra que eu quereria mais da vida, se são essas pequenas coisas que me deixam feliz?

4 de setembro de 2009

Cena

Uma ruiva no ônibus, de pé na sanfona com um livro nas mãos. O calor é insuportável e a cabeça dói, então ela decide fechar o livro e ouvir um pouco de música. Lá pelas tantas o ônibus dá um solavanco, ela levanta os olhos pra janela mais próxima e vê entre dois vidros embaçados e molhados a bandeira do Brasil, encharcada e iluminada por três holofotes. Na outra fresta da outra janela, a Prefeitura e o viaduto do Chá. Uma guitarra chora alguns acordes em seus ouvidos, e ela pensa por um momento nos acontecimentos de meia semana. E pensa que apesar do calor e da fome e do cansaço e da dor e da solidão e da carência ela precisa guardar o nome daquela música, pra mostrar pra um certo alguém...

29 de agosto de 2009

Um texto diferente

O texto de hoje não é meu. Quer dizer... é, mas não é. Com minha mania de escrever demais às vezes saem palavras que não podem ser de Sarah Kelly. Para isso eu tenho múltiplas personalidades, pra assinar com diferentes nomes sem nunca deixar de colocar em palavras aquilo que se forma nos pensamentos. Apresento hoje Lúcio Paulo, paulistano de 27 anos que gosta de andar por aí e ficar quietinho nos cantos, apenas olhando a cidade seguir seu caminho...
______________

Lapa. Seis e meia da tarde de uma sexta-feira qualquer... "Que lugarzinho esse pra onde você me mandou, hein?"

Ela passou por mim falando ao celular. Desceu do ônibus um pouco desorientada, eu a vi dormindo pela janela. Deve ter sido um dia difícil. Parou em frente à banca de jornal e ficou esperando. Esperando. Esperando. Retocou a maquiagem, mexeu no cabelo, olhou em volta. Abriu a bolsa, tirou um jornal e leu duas páginas. Tenho quase certeza que não compreendeu uma palavra do que leu. Seu pensamento não estava ali, e isso estava estampado em seus olhos.

Cansada de tentar se enganar guardou o jornal e começou a passar os olhos pelas revistas penduradas, curiosa. Não tinha cara de quem fosse da região, nem mesmo tinha cara de quem se encaixasse naquele lugar.

Colocou os fones nos ouvidos, ligou o mp3. E riu. Uma risada gostosa, cheia de dentes. Para alguns o que basta é um pouco de memórias de bons momentos.

Olhava o relógio a cada minuto. Estava impaciente. Eu até quis conversar com ela, dar-lhe algo pra fazer enquanto esperava. Mas foi ideia, só; que se foi tão rápido quanto veio.

Entre ficar ao lado da banca de jornais (e no meio do caminho) ou encher seus cabelos de gordura ao lado da barraca de pastel preferiu a segunda opção. Sentou em um banquinho de plástico já bastante surrado e tirou um caderninho da bolsa.

Jornalista ou escritora. Nada mais justificaria todo o tempo em que ela ficou escrevendo. Vez ou outra parava, olhava para os lados e voltava a escrever. Perdi uns bons cinco minutos observando o seu jeito de rodar a caneta entre os dedos, morder a ponta da tampa, e depois rodar de novo enquanto pensava na próxima frase.

Levantou num pulo. Guardou tudo com pressa. Andou até um rapaz de guitarra nas costas. Um beijo no rosto, um abraço demorado. O som estava alto, ele ouviu o que ela estava ouvindo e fez um comentário qualquer sobre a banda. Ela riu. Ele riu. Ela riu de novo, aquele mesmo sorriso que abriu quando ligou o mp3. Desligou o aparelhinho, guardou, e foram embora.

Lúcio Paulo (28-08-09)

16 de agosto de 2009



Fechou e abriu os olhos lentamente. Respirou o ar gelado da noite sem lua, e deixou que entrasse em seus pulmões junto com a fumaça do cigarro que derrubava cinzas sobre suas botas. "De novo", pensou.

Esteve parada ali por uns três ou quatro minutos, esperando não sabia exatamente o quê. A água barrenta do Mondego corria silenciosamente em direção à foz, alguns carros vez ou outra passavam na rua, deixando um rastro de luzes e barulho. E ela continuava ali, parada, como se algo houvesse levado embora sua capacidade de se mover.

A parede de vidro que a separava do rio era espessa... Quebrá-la não parecia tão simples. E também não era necessário, quando se podia somente andar até o final do píer, e ver a proteção transparente se transformar em pedras acinzentadas, à altura do chão.

Na outra margem havia um grande festival. Àquela hora The Cynicals agitavam uma dúzia de estudantes bêbados no palco principal, enquanto os DJs das tendas faziam valer a pena os oito euros cobrados à entrada. Ela estava pra fora, preocupada com o que pudesse estar acontecendo lá dentro. Havia voltado pra casa pra pegar algum dinheiro e chamar um ombro amigo. Nunca nos últimos 6 meses havia sentido tanta falta de um telemóvel.

"Tásse em casa?"
"Tou saindo pro festival"
"Ótimo, me espera aí, preciso falar contigo"

Antes de sair, mais uma chamada:
"Ele tá aí?"
"Está sim, queres falar com ele?"
"Não, só me diz se ele tá bravo"
"Não me parece. Aconteceu alguma coisa?"
"Sim. Desculpa te incomodar com isso"
"Não tens que pedir desculpas"
"Tou indo praí em meia hora, cuida dele pra mim?"
"Claro"

Saiu de novo, batendo a porta e vestindo um casaco. Não estava calor, mas uma gota de suor escorria de sua testa. Andava rápido o suficiente pra fugir de qualquer perigo nocturno, mas não conseguia fugir de si mesma. Num pequeno ataque paranoide mudou de calçada várias vezes, enquanto se esforçava pra andar mais rápido do que suas curtas pernas conseguiam. Subiu as escadas de dois em dois degraus, o fraco coração dava sinais de que aquele seria seu último esforço.

Normalmente levava dez minutos e meio. Chegou em quatro. Bateu à porta tantas vezes quanto conseguiu, gritou até a voz falhar, mas ela não respondeu. Chamou mentalmente, quis ser telepata, sociopata, suicida. Quis voltar pra casa. Não a casa quase à beira do rio que alugara por alguns meses. Quis voltar pra sua casa de verdade. O seu país, com toda a poluição, o trânsito e a agitação da grande cidade que tanto amava.

Encontrou a amiga pela rua e seguiram para o festival. Pelo caminho algumas lágrimas e um abraço. Estava mais calma. Atravessaram o rio pela ponte multicoloridamente iluminada e ela tentou deixar na outra margem toda a preocupação. Asher Lane estava subindo no palco. Era dia de festa.

Powered By Blogger