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1 de janeiro de 2013

A despedida

Ela já havia comido o que sobrara do pernil da ceia de ano novo. Já havia lavado metade da louça, o que incluía todos os pratos e talheres. Que deixasse as panelas. Era a hora.

Ela sabia o que precisava fazer. Desceu as escadas com o objeto nas mãos. Pegou uma rede, estendeu entre os pilares ao lado da churrasqueira e deitou-se. Abriu o livro, procurando pela ficha que havia deixado para marcar o ponto de parada do dia anterior. Faltavam 40 páginas para concluir o relato das aventuras e desventuras de Viramundo e de suas inenarráveis peregrinações.

Os raios fracos do sol bruxuleavam entre os pinheiros que se movimentavam ao sabor do vento. Geraldo Viramundo chegava a Belo Horizonte, um retirante sem mais do que as roupas do corpo, um terço quebrado, uma caderneta, um toco de lápis e algumas outras miudezas no bolso.

Relendo o livro de Fernando Sabino ela teve vontade de mais uma vez largar tudo pra sair por aí, meio sem rumo, meio sem pressa pra voltar. Mas o tempo urge, em duas semanas ela estará de volta à alma mater e à nova velha rotina à qual ainda não conseguiu se acostumar.

Então é assim que a vida segue. Ela teve que chegar à última página. Matou o Viramundo e as suas andanças, justo no primeiro dia do ano.

"Não precisamos disso - afirmou ele. - Não venceremos a coice d'armas. Outro é o nosso poder de fogo, outro é o fogo do nosso poder" (Geraldo Viramundo, in O Grande Mentecapto)

21 de abril de 2011

O meu pé de Laranja Amarga

Sei que quase ninguém leva a sério este blog - começando pela própria dona. Mas aqui vai uma ótima dica de leitura pra este feriado-mais-do-que-prolongado que se inicia hoje:

"O meu pé de Laranja Lima" foi publicado em 1968 por José Mauro de Vasconcelos. Já virou filme, novela, foi adaptado em várias línguas e até em quadrinhos na Coréia. Mas o que tem de tão interessante um livro de cento e tantas páginas pra fazer esse sucesso todo?

Zezé é um menino pobre que tem 5 anos e uma penca de irmãos. Ele é muito esperto, aprende mil coisas com seu tio e adora aprontar com os vizinhos. Apesar da pouca idade já entende de "problemas de adultos" como falta de dinheiro e de afeto. Ele "ganha" uma laranjeira quando sua família muda de casa, e sua imaginação transforma a pequena planta em seu confidente e companheiro de aventuras. Carente demais, Zezé acaba conquistando a amizade do sr. Manoel "Portuga" Valadares, um senhor solitário que se afeiçoa ao pequeno e à sua história sofrida. Acontece uma coisa muito triste mas eu não vou contar porque isso aqui não é lugar de spoiler.

Li este livro pela primeira vez em 20/06/2001 por obrigação escolar. Chorei muito ao final e fiquei morrendo de vergonha de admitir isso. Como podia uma história simples como essa me arrancar lágrimas, em um ano que trouxe pra minha lista literária livros bem mais tristes (e reais) como Olga e os diários de Anne Frank e Zlata? Enterrei o livro no fundo do armário, junto com os meus próprios diários.

Mudanças de moradia e de mente vieram. O livro, uma edição de bolso de 1968, me acompanhou fechado durante esse tempo. Até o último sábado.

Eu já estava de saída quando olhei pra estante. Dom Quixote sorria pra mim, com suas 500 páginas de moinhos de vento, esperando que eu o colocasse na bolsa e o levasse pra mais uma longa viagem de ônibus. Por que não experimentar um livro mais leve? Peguei o menor livro, 16x10,5 cm. Lá fui eu pra Virada Cultural na companhia de Zezé com suas bolinhas de gude e figurinhas de artistas no bolso. Meu desafio era reler a obra sem derramar uma só lágrima e, de quebra, descobrir o que é que tinha me feito chorar tanto na primeira vez.

Missão quase cumprida, terminei de ler ontem; e foi inevitável. É uma história amarga. Se chorar por causa de um livro aos 13 anos é vexatório, que dirá aos 23?

27 de fevereiro de 2011

What if...

Ela queria alguém, ele queria ficar sozinho. Ela esperou, ele fugiu. Ela chorou, ele sumiu. Ele voltou trazendo novidade. E ela ainda com vontade. Ele desconversou, ela mudou. Ela foi e voltou. Ele ficou. Ele casou, ela casou. Ela separou, ele separou. Eles se encontraram.

Ela pediu, ele negou. Ela prometeu, ele não acreditou. Ela fugiu, ele fugiu. Ela saiu com outros. Ele saiu com outras. E o tempo passou.

Eis que a única pergunta insolúvel no mundo é: "E se...?"

(...)entre os números primos existem alguns ainda mais especiais. Os matemáticos os chamam de primos gêmeos: são casais de números primos que estão lado a lado, ou melhor, quase próximos, porque entre eles sempre há um número par, que os impede de tocar-se verdadeiramente.
(...)Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos mas não o bastante para se tocar de verdade.
[in: "A solidão dos números primos", de Paolo Giordano]

22 de outubro de 2010

Atualizando

Vontade de escrever ao léu. Saudade de deixar os dedos simplesmente deslizarem pelo teclado, como se não houvesse mais nada a fazer ou sentir. A janta tá descongelando em cima da pia, o cachorro latindo feito um devairado e a sexta-feira à noite vai ser mais uma como qualquer outra nos últimos tempos.

(And I need a beer.)

Se você procura um grande texto rebuscado, cheio de alegorias bonitas e piadinhas nerds, perdeu seu tempo. Vaza, amigo, que hoje o papo é introspectivo. Lembra da descrição do blog? Então...

Meu irmão finalmente conseguiu consertar a moto que tava desmontada no quintal há pelo menos três meses. Felicidade instantânea.

Continua a busca por um ingresso do Planeta Terra. Continuo revoltada por não conseguir. É...

Comprei dois livros de quadrinhos pelo Submarino. Cachalote, de Daniel Coutinho e Rafael Galera. Retalhos, de Craig Thompson. O primeiro eu li hoje mesmo, em pouco mais de duas horas. Li não, devorei. Não entendi nada. Ou talvez tenha entendido tudo. Tudo o que eu não queria. É a vida. A dos personagens, a minha, a de qualquer um.

Menina mimada que sou, foi inevitável achar que o mundo (ainda) gira ao meu redor. Péssima escolha tentar comparar a minha história a uma (ou todas) do livro.

Segundo erro: insistir na comparação, mesmo depois de perceber que os enredos (sim, são cinco) não mostram exatamente a parte mais feliz da vida. Terceiro erro: não fazer - como sempre faço - a leitura com o caderninho do lado, pra anotar frases que eu achei interessantes ou destacar trechos. Herança da faculdade, não gosto de riscar livros. Acho que vou ter que ler tudo de novo. ^_^

Quero voltar pra Paris. Quero viajar o mundo. Quero um filho. Quero encontrar uma cachalote na piscina.

Bom fim de semana.

28 de agosto de 2010

Palavras, apenas

Há aquele velho ditado que diz que para uma pessoa ser completa precisa ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro (não necessariamente nesta ordem...) Antropólogos diriam que esta é uma tentativa do indivíduo de perpetuar-se mesmo após sua morte, e discursariam a respeito de todas aquelas constatações que envolvem a tomada de consciência de que não viveremos para sempre. (Eles adoram fazer isso. Talvez porque saibam que eles mesmos não são pessoas tão perenes assim. Pobres antropólogos.)

Pois bem. A árvore pode ser arrancada por estar atrapalhando a passagem de uma nova estrada e o filho pode tomar um caminho totalmente diferente daquele que seus pais trilharam, mas as palavras não serão alteradas... jamais?

Lembrei hoje de três frases que depositei na contracapa de uma edição de bolso dos melhores contos de Edgar Allan Poe. Não importa o que foi escrito, mas veio à mente a singeleza do ato: um livro comprado na revistaria do aeroporto, uma pessoa de partida, uma outra que iria ficar. Três anos e onze meses depois não faço ideia de onde esteja este livro. Foi jogado no lixo num acesso de raiva, em uma tentativa (bem sucedida, diga-se de passagem) de machucar um coração. Não que os bons sentimentos que outrora existissem ainda estejam vivos hoje, mas o que incomoda de fato é que as lembranças também foram apagadas. Como se nunca houvessem existido.

Vejo situações semelhantes em alguns livros que habitam minha estante: palavras que não foram escritas pra mim de pessoas que eu nunca chegarei a conhecer. Tudo que foi parar nos sebos da vida, resgatado por cinco ou dez reais de cada vez. Declarações de amor, de amizade, anotações feitas a lápis; à caneta azul, vermelha, preta. Manchas de óleo, marca-texto pra iluminar as ideias e pedaços de papel marcando páginas que não fazem sentido pra mais ninguém.

Por outro lado lembrei também de um outro livro, uma outra edição de contos de Poe que eu tinha há quase 10 anos e que está hoje perdida. Digo perdida porque foi emprestada a alguém que nunca mais vi. Quem sabe um dia o destino se encarregue de me devolver o exemplar rabiscado, com um poemeto ridículo digno de uma menina de 14 anos sem muita vontade de concluir a leitura. Mais uma vez, não pelo que ali está, mas pelo que algum dia aquilo representou.

Seria interessante poder reciclar palavras, como se reciclam livros...

4 de agosto de 2010

A insustentável intelectualidade da piada

Terça-feira, 17 horas. Em alguma escola no interior do Estado de São Paulo, uma aluna questiona a correção de sua lição de casa:
- Mas nesse exercício aqui o que é que está errado? O nome do livro não é Hamlet?
A professora lê a questão. Pensa na resposta. O método construtivista a impede de simplesmente dizer que faltaram as aspas. Imagina um jeito de fazer a aluna chegar sozinha à conclusão. Com toda a paciência do mundo dá a preciosa dica:
- Que tal ler de novo o trecho do texto? A resposta está lá.
A aluna em questão é uma mulher de seus quase quarenta anos que tem que sair dali a pouco pra buscar sua filha no balé; ela não parece querer saber muito dessa história de descobrir seus próprios erros. Passa os olhos pela folha de papel e pede a resposta de novo. A professora arrisca:
- O nome do livro é esse, mas o que é que está faltando nele?
- Não sei.
Aquelas duas palavrinhas mágicas. A alforria para a professora. Agora, sim, ela poderia dizer a resposta, mas não sem antes (claro!) explicar o motivo.
- Sempre que você fala de um livro, um filme, precisa colocar aspas no nome pra identificar o título desse livro dentro do texto. Entendeu?
- Pra quê?
- Porque se você disser simplesmente que encontrou Hamlet na livraria eu posso pensar que você encontrou o Wagner Moura vestido com roupas shakesperianas, segurando uma caveira no meio da livraria.
A professora esboça um sorriso, já imaginando como seria ficar cara a cara com o ator. A aluna fica em silêncio. Envolve o nome do rei dinamarquês com dois tracinhos à direita, dois tracinhos à esquerda e vira a página. O assunto morre ali.

(Sim, isso aconteceu comigo. Fiquei triste. Achei que a moça ia rir, fazer um comentário espirituoso, dizer qualquer coisa... Nada. Nenhuma reação. E eu só queria um mísero "Hahaha"...)
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