26 de setembro de 2010

Fairy tale

Já disse mais de uma vez que odeio contos de fadas. Minha filha (se um dia eu tiver uma menina) não vai ler contos de fadas. Ela não vai crescer esperando príncipes encantados montados em cavalos brancos (ou em motocicletas pretas, que seja). Talvez isso a poupe da inocência exagerada que por vezes estraga certas relações. (Ou não. Veremos.)

Quando eu era pequena assistia a muitos programas infantis, a maioria deles na TV Cultura. Havia um que se chamava "Contos de fadas", produção muito feliz da americana Shelley Duvall, que trazia convidados ilustres como Anjelica Huston, Robin Williams e outros. Naquela época eu nem sabia quem eram tais figuras, mas hoje foi exatamente um desses artistas que me fez assistir pela milésima vez à história da Bela Adormecida. Christopher Reeve, o eterno SuperMan (em todos os sentidos possíveis) lá estava, vestido de príncipe encantado e empunhando um machado. Tem coisa mais divertida do que descobrir que uma das suas referências nerds mais antigas vem das histórias da infância?

Convido-vos a apreciar a história. Todos os vídeos somam quase uma hora, então sugiro um pote de pipocas e uma cadeira confortável. =)

1:

"Viemos de uma terra muito distante"
"Ah, de fato temos muitos viajantes de lá"

2:

"Todos esses dons, para que servem? Crescer, apaixonar-se, viver feliz para sempre, certo? Ótimo. Besteira! Inútil! Homens, yargh! Amor, ugh! Vocês estão falando de sofrimento, dor no coração, problemas, estão me ouvindo?"

3:

"Príncipe, onde está o seu senso de humor?"
"Francamente, madame, é o seu senso de decência que me interessa."
(...)
"Fique longe das princesas. Elas sempre vão te considerar um tolo."

4:

"Não aperfeiçoe o que já é perfeito."

5:

"Cá entre nós, vamos esperar que haja um príncipe por aí com mais coragem do que juízo."

6:

"Você é meu sonho tornando-se real, ou estarei sonhando agora?"

Depois de tudo isso sobram ainda poucas palavras. Eu devia ter prestado mais atenção na Shelley Duvall do que na Disney. E estou ficando cada vez mais parecida com a fada má do segundo vídeo. E tenho medo disso.

16 de setembro de 2010

5 coisas sobre mim

Era uma vez um Meme, que a Ericka pegou de uma amiga e jogou pra galera. Eu tava no meio dessa galera, então vou ter que responder. A ideia é contar 5 coisas sobre mim que o leitor talvez não saiba. Vamos lá:

1- Eu não sei dizer não. Já lá vai uma boa parte da vida nesse aprendizado de colocar em prática uma simples palavrinha. Um dia eu chego lá.

2- Minha memória é eterna. Tenho uma amiga que costuma dizer que "memória de elefante" é fichinha perto da quantidade absurda de datas e detalhes que eu consigo me lembrar. Claro, como nada pode ser perfeito, só tenho esse dom pra coisas que de alguma forma foram relevantes o suficiente pra guardar.

3- Sou maníaca. (Do Aurélio: s.f. indivíduo possuído de uma mania) Mexer nos cabelos, sorrir só com o canto direito da boca, estalar os dedos, subir o tom da voz enquanto converso, colecionar pedrinhas, juntar tranqueiras... Pensou em alguma mania estranha, pode contar que eu devo ter.

4- Meu sentido-aranha não funciona direito. Sempre que vai acontecer alguma coisa ruim comigo eu começo a ver as coisas em câmera lenta. Mais ou menos dois segundos antes de a bomba estourar eu tenho uma especie de dejà vu em slow motion, que é o tempo exato de pensar "Ih, f*deu". Não dá tempo de dizer nada, não dá tempo de parar de dizer aquilo que eu tava dizendo, não dá tempo de fechar a mão e dar o soco primeiro. Serve apenas pra que eu saiba com certeza que seja-lá-o-que-estiver-acontecendo não foi uma boa ideia.

5- Autosabotagem. A gente vê por aqui.

Chamo à berlinda as queridíssimas DanyValente e MariMari. Convoco também o habitante do lado esquerdo do peito Gui Iacovino e a carioca gente-fina FabiRuiva pra completar a galere. Beijos.

28 de agosto de 2010

Palavras, apenas

Há aquele velho ditado que diz que para uma pessoa ser completa precisa ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro (não necessariamente nesta ordem...) Antropólogos diriam que esta é uma tentativa do indivíduo de perpetuar-se mesmo após sua morte, e discursariam a respeito de todas aquelas constatações que envolvem a tomada de consciência de que não viveremos para sempre. (Eles adoram fazer isso. Talvez porque saibam que eles mesmos não são pessoas tão perenes assim. Pobres antropólogos.)

Pois bem. A árvore pode ser arrancada por estar atrapalhando a passagem de uma nova estrada e o filho pode tomar um caminho totalmente diferente daquele que seus pais trilharam, mas as palavras não serão alteradas... jamais?

Lembrei hoje de três frases que depositei na contracapa de uma edição de bolso dos melhores contos de Edgar Allan Poe. Não importa o que foi escrito, mas veio à mente a singeleza do ato: um livro comprado na revistaria do aeroporto, uma pessoa de partida, uma outra que iria ficar. Três anos e onze meses depois não faço ideia de onde esteja este livro. Foi jogado no lixo num acesso de raiva, em uma tentativa (bem sucedida, diga-se de passagem) de machucar um coração. Não que os bons sentimentos que outrora existissem ainda estejam vivos hoje, mas o que incomoda de fato é que as lembranças também foram apagadas. Como se nunca houvessem existido.

Vejo situações semelhantes em alguns livros que habitam minha estante: palavras que não foram escritas pra mim de pessoas que eu nunca chegarei a conhecer. Tudo que foi parar nos sebos da vida, resgatado por cinco ou dez reais de cada vez. Declarações de amor, de amizade, anotações feitas a lápis; à caneta azul, vermelha, preta. Manchas de óleo, marca-texto pra iluminar as ideias e pedaços de papel marcando páginas que não fazem sentido pra mais ninguém.

Por outro lado lembrei também de um outro livro, uma outra edição de contos de Poe que eu tinha há quase 10 anos e que está hoje perdida. Digo perdida porque foi emprestada a alguém que nunca mais vi. Quem sabe um dia o destino se encarregue de me devolver o exemplar rabiscado, com um poemeto ridículo digno de uma menina de 14 anos sem muita vontade de concluir a leitura. Mais uma vez, não pelo que ali está, mas pelo que algum dia aquilo representou.

Seria interessante poder reciclar palavras, como se reciclam livros...

4 de agosto de 2010

A insustentável intelectualidade da piada

Terça-feira, 17 horas. Em alguma escola no interior do Estado de São Paulo, uma aluna questiona a correção de sua lição de casa:
- Mas nesse exercício aqui o que é que está errado? O nome do livro não é Hamlet?
A professora lê a questão. Pensa na resposta. O método construtivista a impede de simplesmente dizer que faltaram as aspas. Imagina um jeito de fazer a aluna chegar sozinha à conclusão. Com toda a paciência do mundo dá a preciosa dica:
- Que tal ler de novo o trecho do texto? A resposta está lá.
A aluna em questão é uma mulher de seus quase quarenta anos que tem que sair dali a pouco pra buscar sua filha no balé; ela não parece querer saber muito dessa história de descobrir seus próprios erros. Passa os olhos pela folha de papel e pede a resposta de novo. A professora arrisca:
- O nome do livro é esse, mas o que é que está faltando nele?
- Não sei.
Aquelas duas palavrinhas mágicas. A alforria para a professora. Agora, sim, ela poderia dizer a resposta, mas não sem antes (claro!) explicar o motivo.
- Sempre que você fala de um livro, um filme, precisa colocar aspas no nome pra identificar o título desse livro dentro do texto. Entendeu?
- Pra quê?
- Porque se você disser simplesmente que encontrou Hamlet na livraria eu posso pensar que você encontrou o Wagner Moura vestido com roupas shakesperianas, segurando uma caveira no meio da livraria.
A professora esboça um sorriso, já imaginando como seria ficar cara a cara com o ator. A aluna fica em silêncio. Envolve o nome do rei dinamarquês com dois tracinhos à direita, dois tracinhos à esquerda e vira a página. O assunto morre ali.

(Sim, isso aconteceu comigo. Fiquei triste. Achei que a moça ia rir, fazer um comentário espirituoso, dizer qualquer coisa... Nada. Nenhuma reação. E eu só queria um mísero "Hahaha"...)
Powered By Blogger